Jairo Oliva Jofer
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TEORIAS · CIVILIZAÇÕES PERDIDAS · AMAZÔNIA

Civilização perdida na Amazônia: o que os lasers revelaram sob a floresta

Por Jairo Oliva Jofer · 28 de outubro de 2026 · 6 min de leitura · Fatos com fonte, lendas contadas como lendas

Resposta curta: em 29 de julho de 2026, a revista Nature publicou um mapeamento a laser que achou 432 obras de terra escondidas sob a floresta do Acre e do Amazonas, e estima que a região pode guardar mais de 20 mil. Os autores calculam que uma sociedade chamada Aquiry pode ter reunido de 1,25 a 3 milhões de pessoas. São estimativas, não censo, mas já derrubam a ideia de uma Amazônia sempre vazia.

Imagine um pulso de laser disparado de um avião. A maior parte bate nas folhas, mas alguns encontram uma fresta e tocam o chão. Milhões deles, voo após voo, e depois um computador apaga as árvores da imagem. É assim que a equipe liderada por Martti Pärssinen, da Universidade de Helsinque, enxergou círculos, quadrados e estradas retas onde só se via mata. O vídeo do canal Matrix Brasil desce por camadas essa história. Aqui vai a versão escrita, com o que cada fonte diz.

Figuras geométricas douradas e estradas retas sobre fundo verde escuro
Ilustração esquemática feita para este artigo. Não é foto de sítio real.

O que o estudo da Nature encontrou

Em 2024, a equipe sobrevoou 4.497 km² no Acre e no Amazonas, em faixas de cerca de 1 km de largura, uma a cada 10 km. O laser registrou 432 obras de terra, e 396 eram desconhecidas. Numa área usada como comparação, ele achou cinco vezes mais estruturas do que a inspeção por satélite. Projetando a densidade para a região, os autores estimam entre 24 mil e 30 mil estruturas numa área de cerca de 183 mil km², menos de 3% da Grande Amazônia. É uma extrapolação feita a partir de uma amostra, e as reportagens mais cuidadosas fazem questão de dizer isso.

Geoglifos: desenhos na terra

Os geoglifos são valas e muros de terra em formas geométricas. A Wikipédia registra mais de 410 deles em cerca de 300 sítios no Acre, e conta que alguns povos indígenas os chamam de "tatuagens da terra". Segundo a Agência FAPESP, uma expedição os registrou em 1977 numa fazenda da BR-317, mas foi o paleontólogo Alceu Ranzi, ao ver as figuras da janela de um avião comercial em 2000, que reacendeu o assunto. Ele afirma que os construtores não derrubaram a floresta: foi o desmatamento moderno que deixou as figuras visíveis.

Esquema com oito formas de geoglifos: círculos, quadrados, hexágono, octógono e U duplo
Esquema simplificado, a partir da lista de formas citada pela Agência FAPESP.

O estudo diz que as estruturas medem de 0,35 a 14 hectares, com a maior chegando a quase 50, e que algumas valas têm de 9 a 13 metros de largura e até 5 de profundidade. A datação por radiocarbono coloca a construção entre 600 a.C. e 850 d.C. Para que serviam? O IPHAN afirma que não há consenso. Os autores veem centros públicos, políticos e cerimoniais, com casas comunitárias em volta, e Pärssinen, segundo a imprensa, cita decisões políticas, danças rituais, banquetes e competições.

Quantas pessoas, e o que elas comiam

A estimativa de 1,25 a 3 milhões de pessoas vale para o auge, entre os anos 100 e 300 d.C., e os autores a tratam como provisória. Análises de plantas apontam milho, abóbora e mandioca, e manejo de castanheira e pupunha. Em algumas áreas ainda hoje há concentrações incomuns dessas árvores, o que, para os autores, sugere plantio e cuidado por gerações. Ainda não se sabe por que a sociedade declinou depois de 850 d.C. Segundo o material divulgado, as coordenadas de sítios em terras indígenas demarcadas foram retiradas antes da divulgação, para evitar saque.

A terra preta e o frade que ninguém acreditou

Em muitos lugares da Amazônia existe um solo escuro e fértil, a terra preta. Segundo a Wikipédia, comunidades agrícolas a formaram entre cerca de 450 a.C. e 950 d.C., com até 9% de carbono preto contra 0,5% do solo ao redor. Já em 1542, o frade Gaspar de Carvajal, que acompanhou Francisco de Orellana na descida do Amazonas, descreveu povoados grandes, estradas e aldeias fortificadas. Por mais de 400 anos muitos estudiosos o trataram como exagerado. Um estudo da Nature de 2022 sobre a cultura Casarabe, na Bolívia, com pirâmides de terra de até 22 metros e cerca de mil quilômetros de canais e calçadas, sugere, segundo a Wikipédia, que o relato provavelmente estava correto.

Cidade Z, Manuscrito 512 e Ratanabá: as lendas

O coronel britânico Percy Fawcett acreditava numa cidade perdida, a Z, no Mato Grosso, e desapareceu em 1925 com o filho Jack e Raleigh Rimmell. No Alto Xingu, o antropólogo Michael Heckenberger documentou depois, com o povo Kuikuro, um complexo com cerca de 20 povoados, praças de uns 150 metros, estradas e pontes. A Wikipédia diz que as lendas sobre esse lugar podem ter influenciado Fawcett, o que é possibilidade, não conclusão. O Manuscrito 512, guardado na Biblioteca Nacional, relata uma cidade vazia no interior da Bahia, com montanha de cristais e portal de três arcos, mas é de autoria desconhecida e veracidade duvidosa.

Já Ratanabá, segundo o Instituto Dakila Pesquisas, seria uma cidade de mais de 450 milhões de anos, ligada por túneis a toda a América do Sul. O O Povo e o Showmetech informam que o instituto não tem vínculo com universidades e que não há estudo científico publicado sobre o tema. Contamos como teoria, atribuída a quem a defende. A diferença para o laser é que o mapeamento da Nature tem dados, datas e autores que qualquer pessoa pode conferir.

Assista ao vídeo completo

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Perguntas frequentes

Existiu uma civilização perdida na Amazônia?

Segundo um estudo publicado na Nature em 29 de julho de 2026, sim: os pesquisadores chamam de Aquiry uma sociedade que construiu obras de terra no sudoeste da Amazônia entre cerca de 600 a.C. e 850 d.C. A palavra "perdida" é popular, mas os autores tratam o tema como arqueologia, com datação e mapeamento a laser.

Quantas pessoas viveram na Amazônia antes dos europeus?

Não há número fechado. O estudo estima que a sociedade Aquiry pode ter reunido entre 1,25 e 3 milhões de pessoas por volta dos anos 100 a 300 d.C., e os próprios autores tratam o valor como provisório, porque depende de quantos sítios estavam em uso ao mesmo tempo.

O que são geoglifos?

São estruturas de terra com valas e muros de formato geométrico (círculos, quadrados, octógonos). Mais de 410 já foram registrados no Acre, segundo a Wikipédia. O IPHAN informa que não há consenso sobre a função, mas as hipóteses apontam espaços coletivos cerimoniais, simbólicos ou de moradia.

Ratanabá existe?

Ratanabá é uma teoria divulgada pelo Instituto Dakila Pesquisas, que fala de uma cidade de mais de 450 milhões de anos entre o Amazonas, o Pará e o Mato Grosso. Reportagens do O Povo e do Showmetech informam que o instituto não tem vínculo com universidades e que não há estudo científico publicado sobre ela. Aqui ela é contada como teoria.

Fawcett estava certo sobre a Cidade Z?

Em parte. Ele acreditava numa cidade perdida no Mato Grosso e desapareceu em 1925. Décadas depois, o antropólogo Michael Heckenberger documentou no Alto Xingu um conjunto de povoados antigos, com praças, estradas e pontes. Não era a cidade de ouro sonhada por Fawcett, mas confirma que havia sociedades complexas na região.

Fontes consultadas:

Conteúdo de entretenimento e divulgação. Os números do estudo são estimativas dos autores. As teorias e lendas são apresentadas como teorias, atribuídas a quem as defende, e não como fatos comprovados.

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Nômade digital. Brasileiro morando na Sérvia. Escreve guias honestos e sem enrolação e conta teorias e mistérios com fonte no canal Matrix Brasil. Ver todos os guias →