Jairo Oliva Jofer
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TEORIAS · CIVILIZAÇÕES PERDIDAS · ATLÂNTIDA

Onde ficava a Atlântida? As principais teorias, de Platão à Atlântida brasileira

Por Jairo Oliva Jofer · 4 de novembro de 2026 · 6 min de leitura · Fatos com fonte, teorias contadas como teorias

Resposta curta: ninguém sabe onde ficava a Atlântida, e quase tudo o que se conta vem de dois diálogos de Platão, o Timeu e o Crítias, escritos por volta do século IV a.C. O segundo termina no instante em que Zeus vai falar para punir a ilha. Desde então, autores propuseram lugares do mar Egeu ao Caribe e até um pedaço do Atlântico Sul diante do Brasil. Aqui vai cada proposta, com o nome de quem a defende.

No vídeo do canal Matrix Brasil a gente trata isso como uma investigação: cada lugar proposto é um candidato a completar a frase que Zeus deixou no ar.

Anéis concêntricos dourados e azuis sobre um céu estrelado
Ilustração esquemática feita para este artigo. Não é foto nem mapa real.

O que Platão escreveu

No Timeu, Platão conta que o legislador ateniense Sólon, em visita ao Egito, ouviu de um sacerdote em Saís a história de uma potência do Atlântico que, nove mil anos antes, atacou a Europa e a Ásia e foi detida pela Atenas primitiva. Terremotos e inundações teriam engolido a ilha em um único dia e uma única noite. Como Sólon viveu por volta de 600 a.C., a conta dá cerca de 9600 a.C., ou uns 11.600 anos atrás. É uma conta nossa, aproximada.

O Crítias entra nos detalhes. Poseidon recebe a ilha, apaixona-se por Clêito e tem cinco pares de gêmeos; o mais velho, Atlas, dá nome ao oceano. A colina de Clêito é cercada por cinco anéis, três de água e dois de terra, e a ilha central tem cinco estádios de largura. No total, uns 27 estádios, perto de cinco quilômetros. A planície em volta mediria 3.000 por 2.000 estádios, algo como 555 por 370 km, com 10.000 carros de guerra e 1.200 navios. Os muros eram cobertos de bronze, estanho e oricalco, e o templo de Poseidon, de prata e ouro.

Diagrama dos anéis de água e terra da Atlântida segundo Platão, com as larguras em estádios
Diagrama simplificado a partir das medidas do Crítias. Conversão do estádio (cerca de 185 m) é aproximada.

E o texto acaba quando Zeus reúne os deuses para punir os atlantes, que decaíram moralmente, e começa a falar. A edição em inglês que consultei, do Projeto Gutenberg, traz uma nota dizendo que o resto do diálogo se perdeu. Ninguém sabe se o texto se perdeu ou se Platão não terminou.

Quem levou a história a sério

Segundo a Wikipédia, Aristóteles achava que Platão tinha inventado a ilha para ensinar filosofia, enquanto Estrabão e Posidônio acreditavam que ela existiu. No século XVII, o sueco Olof Rudbeck defendeu que a Atlântida era a Suécia. Em 1882, o político americano Ignatius Donnelly publicou Atlântida: o Mundo Antediluviano, que vendeu bem e dizia que a ilha foi a origem comum das civilizações antigas; no ano seguinte, atribuiu o fim dela a um cometa. Mais recentemente, Graham Hancock sustenta, no livro Magicians of the Gods (2015), que uma civilização avançada se dispersou depois do impacto de um cometa. Alguns movimentos europeus do século XX usaram o mito para defender a ideia de raça superior, e esse caminho nós rejeitamos: o texto de Platão fala de poder, ambição e queda.

Os oito lugares propostos

1. Santorini, no Egeu. Por volta de 1600 a.C., uma erupção gigantesca atingiu a ilha, que antes formava um anel quase fechado em volta de um mar interno, com uma única entrada entre Thera e Aspronisi. O arqueólogo Spyridon Marinatos, que descobriu Akrotiri, sugeriu a ligação com Platão. Tsunamis atingiram o norte de Creta, onde vivia a civilização minoica.

2. O sudoeste da Espanha. Em 2004, Rainer Kühne apontou na revista Antiquity duas estruturas retangulares em imagens de satélite da Marisma de Hinojos, no Parque Nacional de Doñana, e sugeriu ligação com Tartessos. Richard Freund também apontou Doñana em 2011, segundo a Wikipédia.

3. O Banco de Spartel. Submerso no Estreito de Gibraltar, a 56 metros no ponto mais alto, era uma ilha até cerca de 12.000 anos atrás. Jacques Collina-Girard e Marc-André Gutscher o propuseram como possível Atlântida (a ideia saiu na revista Science em 2005); depois, o próprio Gutscher disse que ele não poderia ser a Atlântida, porque Platão descreve uma sociedade da Idade do Bronze.

4. A Estrutura de Richat. O "Olho do Saara", na Mauritânia, tem cristas concêntricas que os defensores comparam aos anéis de Platão. Quem desconfia lembra que o povo "atlantes", citado por Heródoto, vivia perto do monte Atlas, longe dali.

5. Doggerland. Entre 10.000 e 7.000 anos atrás, o mar engoliu esta planície que ligava a Grã-Bretanha ao continente. Em 1931, o barco de pesca Colinda recolheu na rede uma ponta de chifre com farpas dentro de um bloco de turfa.

6. A Antártida. Segundo a Wikipédia, Flavio Barbiero propôs a ideia em 1974. É a mais difícil de checar, porque o gelo cobre o chão.

7. O Caribe. A lista da Wikipédia cita a península de Guanahacabibes, em Cuba, e as Bahamas, onde fica Bimini, tema do próximo trecho.

8. O Atlântico Sul, diante do Brasil. A Elevação do Rio Grande, que vem mais abaixo. E há ainda quem veja a Atlântida como alegoria do Império Persa ou nem procure lugar nenhum.

O profeta adormecido e a Estrada de Bimini

Edgar Cayce (1877-1945) dava suas leituras em transe, deitado, de braços cruzados, enquanto a secretária Gladys Davis anotava tudo em taquigrafia. Segundo seguidores, ele descreveu uma Atlântida muito avançada, chamou o Grande Banco das Bahamas de Poseidia e disse, em 28 de junho de 1940, que ela voltaria a emergir no final dos anos 1960. Em 2 de setembro de 1968, o zoólogo J. Manson Valentine e os mergulhadores Jacques Mayol e Robert Angove encontraram diante de Bimini, a cerca de 5,5 metros de profundidade, uma fileira de blocos de pedra com uns 800 metros. Seguidores de Cayce a ligaram à profecia. Geólogos que a estudaram, entre eles Eugene Shinn, concluíram que é rocha de praia natural.

O que interessa por aqui é que a Atlântida de Cayce veio do sono. Quem se interessa por sonhos pode começar por este guia de sonho lúcido e pela música binaural e os tutoriais do canal.

A Atlântida brasileira

Em maio de 2013, Roberto Ventura Santos, dirigente do Serviço Geológico do Brasil, anunciou que amostras de granito, rocha típica de continente, tinham sido recolhidas na Elevação do Rio Grande, a cerca de 1.500 km da costa, na altura do Rio de Janeiro. Segundo a AFP, ele disse que poderia ser a "Atlântida brasileira". A hipótese da época era um fragmento de continente que afundou quando o Atlântico se abriu, há cerca de 100 milhões de anos.

Em 2018, uma expedição do navio britânico Discovery, com 10 pesquisadores brasileiros e 10 ingleses, liderada por Luigi Jovane, da USP, e Bramley Murton, da Universidade de Southampton, mapeou um planalto a cerca de 800 m de profundidade cortado por uma fenda de 1.400 m. Achou seixos de basalto típicos de costas batidas por ondas, indício de um passado fora d'água. A hipótese deles: uma ilha vulcânica do tamanho do País de Gales, formada há cerca de 80 milhões de anos, que começou a afundar há uns 40 milhões. É muito antes de qualquer ser humano, então o nome "Atlântida" aqui é só um apelido.

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Perguntas frequentes

Onde ficava a Atlântida?

Ninguém sabe, e não há consenso. Platão a coloca diante das Colunas de Héracles, que tradicionalmente se identificam com o Estreito de Gibraltar. Autores modernos propuseram Santorini, o sudoeste da Espanha, o Banco de Spartel, a Estrutura de Richat, Doggerland, a Antártida e o Caribe, entre outros. Cada proposta é uma teoria atribuída a quem a defende.

Quem escreveu sobre a Atlântida?

A descrição completa vem de dois diálogos de Platão, o Timeu e o Crítias, do século IV a.C. O Crítias termina no momento em que Zeus vai falar para punir a ilha, e a edição consultada informa que o resto do diálogo se perdeu.

O que é a Atlântida brasileira?

É o apelido dado em 2013 pelo geólogo Roberto Ventura Santos, do Serviço Geológico do Brasil, à Elevação do Rio Grande, uma cordilheira submarina a cerca de 1.500 km da costa, onde foi encontrado granito, rocha típica de continente. A hipótese dos pesquisadores é que o lugar já esteve acima do mar há dezenas de milhões de anos, muito antes de qualquer ser humano.

Quem foi Edgar Cayce e o que ele disse sobre a Atlântida?

Edgar Cayce (1877-1945) foi um americano conhecido como o Profeta Adormecido, que dava as chamadas leituras em transe. Segundo seguidores, ele descrevia a Atlântida como muito avançada e disse em 1940 que parte dela voltaria a emergir no final dos anos 1960. A Estrada de Bimini foi encontrada em 1968, e seguidores a ligaram à profecia; geólogos que a estudaram a consideram rocha de praia natural.

A Atlântida existiu?

Não há prova aceita por todos. Aristóteles, segundo a tradição, achava que Platão a inventou; Estrabão e Posidônio acreditavam que existiu; e arqueólogos como Flint Dibble e David Anderson, ouvidos pela National Geographic Brasil, a tratam como ficção. Neste canal ela é contada como teoria, dizendo quem defende cada versão.

Fontes consultadas:

Conteúdo de entretenimento e divulgação. Os lugares citados são propostas de autores, atribuídas a quem as defende, e não conclusões comprovadas. Conversões de medidas antigas são aproximadas.

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Jairo Oliva Jofer

Nômade digital. Brasileiro morando na Sérvia. Escreve guias honestos e sem enrolação, e conta histórias de ascensão e queda no canal Icarus Paradox. Ver todos os guias →